Na tua infância, os teus pais deixavam-te na casa da tua avó enquanto iam trabalhar.
Era para lá que voltavas depois da escola e era lá que esperavas que te viessem buscar.
Enquanto lanchavas e assistias aos desenhos animados, a tua avó, ora de agulha e dedal ora debruçada na velha máquina Singer, ia fazendo costura. Hoje bainha de calças, amanhã apertar um vestido, conforme os pedidos da estimada vizinhança.
Mas há um dia em que ela, com as sobras de vários trapos, te faz uma peça que adoraste (podes imaginar o que quiseres: um vestido, uma capa de super herói...) e a partir desse dia nasceu em ti o desejo de criares as tuas próprias roupas.
Vais para artes no secundário. Depois Faculdade de Belas Artes. Crias as tuas peças. Tens um estilo arrojado, único, e começam a surgir-te algumas encomendas. Blogs, posts no Instagram, entrevistas em jornais locais... És um fenómeno. O negócio, ainda a funcionar em tua casa, já começa a pedir uma expansão.
Após alguns anos, consegues finalmente os fundos necessários. Correste a tua cidade de ponta a ponta e encontraste o espaço perfeito, no local perfeito. Loja e atelier.
É o dia da inauguração. Veio a tua família, os teus amigos, a imprensa...
Chegas a casa e vais às redes sociais ver o que disseram, procurar o que escreveram sobre o teu novo projeto. Escreves o nome da loja no Google pela primeira vez. Um murro no estômago. É demasiado tarde quando descobres o que significa na sexta língua mais falada do mundo. Jamais expandirás para Portugal.
P.S.: Tirei a foto em Barcelona, 2017.
Cristiano Magalhães
2022-09-15 11:43:10 +0000 UTCElsa
2022-01-18 08:18:51 +0000 UTC